Quinta, 09 de Setembro de 2010


[03/12/2009]
Impactos da agricultura e da pecuária nas emissões do Brasil

Instituto Ecodesenvolvimento

Um artigo recém publicado pelos pesquisadores do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP apresenta um perfil dos impactos da pecuária no Brasil e reforça o papel do setor na emissões do território brasileiro. Segundo o estudo, que poderá auxiliar na tomada de decisões políticas, principalmente na próxima reunião da COP 15, é preciso dar mais atenção à pecuária e pensar em soluções para uma ocupação racional e sustentável das áreas agrícolas disponíveis no país.

O estudo intitulado "Emissões de gases do efeito estufa do Brasil: Importância da agricultura e pastagem" foi liderado pelo professor Carlos Clemente Cerri e publicado na revista científica Scientia Agricola, da Esalq. A revisão apresenta cálculos feitos com base em cinco fontes de emissão - energia, processos industriais, agricultura, mudança de uso da terra e resíduos, bem como de suas subfontes, além de oferecer um quadro inédito de emissões do Brasil.


Segundo informações da Esalq , o artigo substitui os cálculos apresentados em 2004 que traziam dados relativos ao período de 1990 a 1994. Neste documento foi relatado que o país é um dos maiores emissores de gases do efeito estufa (GEE) do mundo e isto ocorre, em grande parte, por causa do desmatamento, principalmente da Amazônia, para dar lugar à agricultura e pecuária.

O atraso na republicação do estudo vai contra a determinação da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, realizada no Rio de Janeiro, em 1992. Além de firmar uma redução da emissão de GEE para a atmosfera, o acordo estabelecia a realização de inventários periódicos sobre o assunto.

"Os dados do primeiro inventário são relativos a 1994, e é o que prevalece até hoje. Já são passados 15 anos. Como participei de parte do primeiro relatório, montei minha equipe e atualizamos esses dados até 2005, utilizando a mesma metodologia do inventário anterior. Assim, calculamos as emissões a cada cinco anos, ou seja, 1990, 1995, 2000 e 2005", comentou Cerri.

Embora considerado por aqueles que já tiveram acesso ao trabalho como um novo inventário, os autores salientam que este artigo não deve ser considerado um documento oficial da Comunicação Nacional, apesar de ele poder auxiliar na tomada de decisões políticas na ausência de um documento oficial.

Mais tóxicos que o gás carbônico

Cerri explica que todo o processo de digestão do gado gera gases altamente tóxicos. "Tudo isso parece folclórico, mas é importante, porque o metano e o óxido nitroso são gases que têm alto potencial para aquecer a atmosfera terrestre vinte e trezentas vezes mais do que o gás carbônico. Assim, nosso estudo aponta maneiras de se trabalhar com uma pecuária mais tecnificada para melhor aproveitamento das áreas atuais sob pastagens e, em consequência, reduzir as emissões pelo setor", explica Cerri.

De acordo com o pesquisador, quando os três gases do efeito estufa foram convertidos em uma única unidade denominada de "equivalente em CO2", percebeu-se que a taxa de emissão de gases do desmatamento aumentou 8,1% entre 1994 e 2005, enquanto que a taxa produzida pela fermentação dos ruminantes teve aumento de 13%. E a preocupação não pára por aí: "hoje, a ocupação média no Brasil é de 0,9 cabeças por hectare. O Brasil precisa, nos próximos dez anos, de 20 milhões de hectares para acomodar as expectativas de expansão na produção de alimentos, fibras e biocombustíveis para suprir as necessidades internas e exportar", diz o pesquisador.

"Precisamos produzir mais soja, milho, arroz, trigo, algodão, cana-de-açúcar e oleaginosas para biocombustível; mais reflorestamento com silvicultura com eucalipto, pinus e outras essências e isso dá, mais ou menos, 20 milhões de hectares e nós não podemos desmatar. O grande desafio é proceder essa expansão sem novos desmatamentos e isso é perfeitamente possível adotando um planejamento estratégico adequado nas áreas já ocupadas pela agricultura e pecuária", afirma.

Para isso, o pesquisador indica utilizar as tecnologias existentes no país, trabalhar na recuperação de pastagens degradadas, no melhoramento genético e na adoção da integração lavoura-pecuária, reduzindo tempo e espaço e aumentando a produtividade. "Isso faz com que o tempo de vida do animal seja reduzido. Ao invés de permanecer três anos e meio no campo, é possível reduzir o tempo para o abate com mesmo peso, porém com menor emissão de gases responsáveis pelo aquecimento global", conclui.


Projeto do Instituto Ecodesenvolvimento

Fonte: Adital



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