Quinta, 09 de Setembro de 2010


[10/12/2009]
CARTA DA XIV ASSEMBLEIA NACIONAL

Serviço Pastoral dos Migrantes

“A Missão da Pastoral dos Migrantes no contexto da crise global”

Neste lema e no compromisso com a causa dos/das migrantes, estivemos reunidos/as na XIV Assembléia Nacional, entre os dias 27 a 29 de Novembro de 2009, na Casa de Encontros Madre Cabrini, zona Sul da cidade de São Paulo.
Viemos de 16 Estados do Brasil, entre outras nacionalidades (Paraguai, Colômbia, Haiti, México, Guianas Inglesa, Peru e Bolívia), sendo cinqüenta mulheres, vinte e quatro homens e três entidades convidadas: Comissão Pastoral da Terra-CPT, Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios-CSEM e Centro de Estudos Migratórios-CEM. Pessoas que não pouparam esforços para se deslocarem de muito longe e que são representativas dos trabalhos de base e articulação da Pastoral dos Migrantes no Brasil.

Nas fronteiras da evangelização, o SPM prestes a celebrar o seu Ano Jubilar tem como missão ser Igreja com o povo migrante, a caminho, assumindo suas alegrias e dores, na acolhida, na luta por justiça, dignidade, protagonismo, cidadania universal, sinais do Reino de Deus.

Em nossa reflexão, percebemos que a crise global não é uma crise de produção, mas financeira, na qual entrou em colapso o sistema de especulação sem limites. A crise revela também que o atual sistema de produção em escala e consumo de mercadorias não é compatível com uma sociedade justa e um mundo ambientalmente sustentável. A intensa produção de mercadorias e seu consumo exacerbado implicam em forte demanda de energia que é gerada por grandes projetos de desenvolvimento, como monocultivos, barragens, mineração, cujo desenvolvimento agride duramente o ambiente, gera diversas catástrofes sociais e climáticas que faz multiplicar o número de pobres e de migrantes.

Portanto, mais que uma crise econômica, é uma crise de paradigma no interior do próprio capitalismo, onde “a vida virou mercadoria e a mercadoria ganhou vida”.  Ivo Poletto, assessor das pastorais sociais, ressaltou que, neste ritmo e modelo de desenvolvimento, “a terra vai nos proibir de continuar vivendo no seu chão!”. Análises científicas e relatórios da Organização das Nações Unidas – ONU apontam para um colapso ambiental iminente, no qual todos os tipos de vida estarão ameaçados. Mas, a resposta do próprio capitalismo à crise piora a situação do planeta. Bilhões de dólares que deveriam ser investidos em políticas públicas são aplicados na produção intensiva de mercadorias e no estímulo a seu consumo ilimitado.

Nesta realidade, refletimos sobre a inserção do SPM na Missão das Pastorais Sociais e constatamos que o episódio de Emaús (Lc 24,13-35) interpela os migrantes a serem discípulos missionários de Jesus Cristo, de acordo com o espírito do Documento de Aparecida. Enfim, um desafio que, se, por um lado, parece superar nossas forças, por outro, abre um leque de possibilidades pelos próprios sonhos, garra e luta dos homens e mulheres migrantes.
Elencamos os seguintes desafios: - brasileiros retornados; prostituição; tráfico de seres humanos; estudantes africanos atraídos por falsas promessas; dificuldade de integração dos imigrantes; encarcerados/as estrangeiros/as; violações de direitos; narcotráfico; violência; anistia que não atingiu a todos; trabalho escravo; concentração da terra; mortes de trabalhadores migrantes por esgotamento físico; descomprometimento de sindicatos para com os trabalhadores assalariados; falta de perspectiva para a juventude; ameaças às lideranças e trabalhadores; falta de políticas públicas, entre outros.

Os desafios nos inspiram a romper as fronteiras que sufocam a vida; a aprender com os migrantes e lutar por outras formas de desenvolvimento social com dignidade, justiça para todos e cuidados com o equilíbrio ambiental da Terra.  Reafirmamos o compromisso de fortalecer o trabalho de base, acolhida que supere o assistencialismo, em redes e parcerias que viabilize o protagonismo histórico dos/das migrantes, em harmonia com a natureza.

Nestes 25 anos acreditando no protagonismo dos/as migrantes e contribuindo no processo organizativo das lutas populares, novos caminhos e veredas se abrem na esperança de uma sociedade justa, solidária e protetora dos direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais. 

São Paulo, 29 de novembro de 2009.



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